Museu da Fotografia de Fortaleza
UCRÂNIA. De Donbas a Kiev - 12 anos de guerra

Após 12 anos documentando o conflito que já ceifou a vida de mais de um milhão de jovens soldados russos e ucranianos, o fotógrafo e jornalista brasileiro Yan Boechat apresenta, no Museu da Fotografia Fortaleza, um registro visceral da resistência e da tragédia na Ucrânia. A exposição é uma jornada sensorial dividida em três atos que propõe uma reflexão acerca da finitude e da dor.

O percurso inicia-se com o silêncio do preto e branco em 28 fotografias. Utilizando uma câmera analógica Rolleiflex, Yan Boechat resgata a fotografia como um exercício de observação e reverência. No formato quadrado do negativo 6×6, a guerra ganha textura atemporal, silêncio. O registro é pausado, forçando o olhar a se demorar nos detalhes que a pressa da fotografia digital ignora. É a “fotografia lenta” como forma de humanizar o desastre e eternizar o grão da realidade.

O segundo bloco foca na iconoclastia de guerra. As lentes de Boechat testemunham a destruição sistemática de estátuas e monumentos de grandes ícones soviéticos que, desde o início da invasão, vêm sendo derrubados pelos nacionalistas ucranianos. Um lado B desse conflito com enorme significado político. As imagens revelam a tentativa de apagamento histórico e cultural, processo que se trava não apenas contra corpos, mas também contra o bronze, o mármore, a identidade de um povo.

O terceiro ato é o coração da ação. É o registro da guerra em seu estado mais cru e imediato. São fotografias duras, diretas e dotadas de beleza trágica. Boechat capta o front sem filtros, impedindo que o espectador desvie o olhar da brutalidade que consome uma geração inteira de jovens.

Nesses mais de 12 anos de idas e vindas documentando a invasão russa na Ucrânia, a fotografia de Boechat busca o que resta do humano em meio aos escombros. Registros sobre o tempo e a rapidez com que a vida se desfaz.

Fernando Costa Netto, curador.

A Guerra em Cores

Esta série reúne imagens captadas no front da guerra na Ucrânia ao longo de um conflito que já dura mais de uma década. Iniciada em 2014 com os combates no leste do país e ampliada dramaticamente pela invasão russa em grande escala em 2022, a guerra transformou o território ucraniano em um dos principais campos de batalha da Europa contemporânea.

As fotografias aqui apresentadas se concentram no instante em que a guerra acontece. São imagens não do silêncio que permanece após os combates, mas do momento exato em que a ação se desenrola: mostram soldados avançando sob fogo, explosões rasgando o horizonte, veículos blindados cruzando campos devastados, corpos em movimento entre ataque, defesa e sobrevivência.

A escolha pela cor é central para essa narrativa visual. Ela se manifesta na poeira levantada pelas explosões, no brilho metálico dos equipamentos militares, na fumaça que encobre o campo de batalha e na luz dura que atravessa paisagens devastadas. São imagens do momento, sem muita reflexão e muito mais no instinto.

Cada fotografia é um fragmento de segundos decisivos, capturado em meio ao caos do combate. Juntas, as imagens compõem o testemunho visual de uma guerra que continua a redefinir fronteiras, sociedades e o próprio significado de segurança na Europa do século XXI.

Mais do que registrar batalhas, esta série busca aproximar o espectador da experiência física e humana do conflito — da tensão, da velocidade e da incerteza que definem a vida no front.

Tempo e Guerra

A guerra entre Rússia e Ucrânia completou quatro anos em 24 de fevereiro de 2026, mas suas raízes remontam a mais de uma década, caracterizando o conflito como o maior e mais sangrento na Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O número exato de vidas perdidas permanece incerto, mas mesmo as estimativas mais conservadoras apontam para centenas de milhares de mortes.

Apesar do uso intensivo de tecnologias avançadas — drones, mísseis hipersônicos, vigilância por satélite e guerra cibernética —, o conflito também é travado com estratégias e cenários que evocam guerras do passado. Trincheiras, cidades devastadas e o ritmo da vida sob bombardeio lembram cenas que poderiam ter sido testemunhadas na Europa há mais de setenta anos.

Esses ecos do passado levaram a uma escolha deliberada de linguagem fotográfica. Todas as imagens desta série foram registradas com uma câmera Rolleiflex 2.8F, utilizando filme Kodak Tri-X 400 em médio formato. O enquadramento quadrado e o processo analógico, mais lento, criam uma distância em relação à imediaticidade das imagens digitais de guerra, convidando a uma relação diferente com o tempo.

As fotografias foram reveladas em Rodinal e posteriormente digitalizadas, preservando a marca física do grão do filme e a materialidade do processo analógico. Os negativos em médio formato preservam profundidade e textura que reforçam a sensação de que esses momentos existem simultaneamente no presente e em uma continuidade histórica mais longa.Em uma guerra marcada pela velocidade da tecnologia contemporânea, essa abordagem busca desacelerar o ato de testemunhar. Cada imagem torna-se um fragmento de tempo suspenso — conectando a violência do presente à memória persistente das guerras que vieram antes.

Lenin’s Heads

Depois da Rússia, a Ucrânia foi o país que mais ergueu monumentos em homenagem a Vladimir Lênin em toda a antiga União Soviética. Estima-se que cerca de 5,5 mil estátuas tenham sido instaladas no território ucraniano ao longo do século XX, espalhadas por cidades, vilas e pequenas localidades.

Em muitos países do Leste Europeu, esses monumentos foram derrubados logo após o colapso soviético, em 1991. A remoção das estátuas representava, ainda que simbolicamente, a tentativa de romper com quase sete décadas de dominação política e cultural. Foi o que aconteceu nos países bálticos, na Polônia, na Hungria e em diversas outras nações da região.

Na Ucrânia, porém, a história foi diferente. Durante mais de duas décadas após o fim da União Soviética, Lênin continuou presente na paisagem urbana do país. Estátuas permaneceram em espaços simbólicos das principais cidades — como o centro de Kyiv ou a praça central de Kharkiv — até que a disputa política entre forças pró-europeias e pró-Rússia transformou esses monumentos em um campo de batalha simbólico.

Entre 2014 e 2015, quase duas mil estátuas foram derrubadas em um fenômeno que ficou conhecido como Leninopad — “a queda dos Lênins”. Nos anos seguintes, uma legislação aprovada pelo Parlamento ucraniano determinou a remoção de todos os símbolos soviéticos dos espaços públicos.

Mas muitas dessas estátuas nunca desapareceram completamente.

Desde o início da invasão russa em 2022, venho percorrendo o país em busca desses monumentos que eu imaginava já não existirem. Em vez disso, encontrei fragmentos de Lênin espalhados por toda parte: cabeças, torsos e estátuas inteiras guardados em galpões municipais, depósitos abandonados ou pátios de manutenção das cidades.

Esses restos revelam uma relação complexa com o passado. Derrubadas, mas não destruídas, as estátuas permanecem como vestígios de uma história que ajudou a moldar a identidade ucraniana — ao mesmo tempo em que se tornou o principal antagonista na tentativa de construção de uma nova narrativa nacional.

Hoje, em meio à guerra travada contra a Rússia, esses fragmentos de Lênin são testemunhas silenciosas de um passado que insiste em não desaparecer.